Em mais um avanço histórico da humanidade, empresas de inteligência artificial descobriram que a melhor maneira de preservar o conhecimento é retirar os livros de circulação, arrancar-lhes as páginas e guardar apenas aquilo que interessa às máquinas.

Obras são compradas, desmontadas e digitalizadas para ensinar algoritmos, inaugurando um novo modelo de preservação cultural no qual o patrimônio continua existindo — desde que não ocupe espaço, não tenha lombada e aceite ser hospedado em algum servidor com assinatura mensal.

A técnica, conhecida como “ler sem ter que ler”, promete revolucionar a cultura mundial. Segundo fontes que pediram anonimato por ainda estarem procurando a estante, o próximo passo será ensinar algoritmos a apreciar literatura sem o inconveniente de autores, leitores ou livros.

“Durante séculos, a humanidade cometeu o erro de manter as obras inteiras”, explicou um especialista imaginário. “Agora entendemos que o conteúdo pode sobreviver perfeitamente sem o objeto, desde que esteja hospedado em algum servidor com assinatura mensal.”

A nova metodologia também abre caminho para outras formas de modernização do conhecimento. Especialistas já estudam demolir universidades para acelerar o ensino superior, argumentando que prédios, professores e estudantes ocupam um espaço que poderia ser utilizado por centros de processamento.

A proposta é simples: destruir a estrutura, salvar os dados e chamar o resultado de progresso.

Questionadas sobre o destino dos livros físicos, as empresas garantiram que nada será perdido. “Todo o conhecimento relevante será preservado”, afirmou um porta-voz. “O restante — capas, páginas, memória material e qualquer valor histórico que não possa ser convertido em dados — será descartado de maneira responsável.”

A humanidade, portanto, pode ficar tranquila: a biblioteca foi queimada, mas o backup está seguro.

Desde que ninguém esqueça a senha.